terça-feira, 29 de maio de 2018

06. Que Deus salve o Brasil! Será???


Eu não sei você, mas estes últimos dias tenho vivenciado vários sentimentos com relação à atual situação política e social de nosso país. A sensação maior é de que ninguém sabe ao certo o que fazer, como se comportar, como receber e pensar toda a realidade que temos vivido. A televisão e as mídias impressas (muitas vezes controlada por interesses particulares) apresentam a sua visão dos fatos. A internet e os agências de notícia também o fazem, com enormes divergências quanto às notícias veiculadas pela tv. E no meio disto tudo ainda os aplicativos sociais nos bombardeiam a todo momento com vídeos e áudios com depoimentos e conclamações de posicionamento quanto à greve. O importante é ter um lado e se posicionar, seja pró ou contra governo.

Tamanha é minha estupefação frente os atuais pedidos de intervenção militar, seja por meio dos grevistas ou da população em geral que também se manifesta. Realmente falta nos uma educação de qualidade que nos ajude a aprender com nossa própria história. Mas o que desejo relevar aqui não é a questão política, mas religiosa. Porque não poucas vezes, diante de situações tão caóticas e sendo o Brasil ainda um país onde muitas pessoas tem fé, resta a população colocar sua esperança em Deus para que ele mude a realidade.

Mas será que Deus pode mudar a realidade do país? Será que sua intervenção na história humana pode se dar de maneira milagrosa, a ponto de salvar o Brasil deste caos marcado pela busca dos interesses particulares de políticos, empresários e funcionários públicos, todos imersos em escândalos e mais escândalos de corrupção e roubos?

Todos já ouvimos, certamente, a frase de que para Deus nada é impossível. Assim sendo, deveríamos clamar o máximo possível para a mudança desta realidade por ação de Deus. Ele é aquele que está acima de todas as realidades, de todas as ações humanas, de tudo o que existe. Para utilizar uma imagem atual, "o sangue de Jesus tem poder para nos lavar de todo o pecado". E se ele pode até mesmo andar sobre as águas, como relatam os evangelhos, ele pode também, por nossas orações, nos salvar desta realidade excludente do Brasil.

Seria bom que fosse simples assim. Penso, porém, que Deus Trindade, em seu grande amor, trata-nos como adultos e não invalida o dom da liberdade dada a cada ser humano. O relato de Jesus andando sobre as águas segundo o evangelho de João talvez possa nos ajudar neste sentido. Aqui percebemos que Jesus mostra-se presente e traz luz nova, mas sem eliminar os desafios inerentes à própria vida humana.

Como todo evangelho de João, essa breve passagem aponta-nos o perigo de buscarmos em Jesus o milagreiro. A passagem de Jesus que anda sobre as águas está inserida neste contexto. Após o sinal da multidão saciada (Jo 6, 1-15), alguns queriam proclamá-lo rei. Querem um rei dos milagres. Jesus, porém, se afasta, sem os discípulos, em direção ao monte, local da intimidade com Deus Pai.

Segundo João (6, 16-21), os discípulos então, em exercício de sua liberdade, decidem rumar em direção à Cafarnaum, pelo mar. O mar na cultura judaica é o lugar do mal, baixo, em oposição ao monte, alto, lugar de Deus. No mar estamos sujeitos a todo o perigo e a vida está sempre em risco. A ausência de Jesus é a própria escuridão em que os discípulos se encontram. Contra eles sopra um vento forte e o mar se agita. (Não seria também a nossa atual situação?).

Os discípulos remam e remam, mas o perigo continua. É neste momento que aparece Jesus, caminhando sobre o mar, indo em direção aos discípulos. É dele a iniciativa. Ele está sempre indo ao encontro dos seus, mesmo em situações de medo e dificuldade. Mas para a nossa surpresa e ao contrário dos evangelhos de Marcos e Mateus, Jesus no evangelho de João não faz cessar o vento e nem acalma o mar. A tônica aqui é outra. Se a ausência de Jesus trazia sombras e escuridão, sua presença traz luz e discernimento.

Mesmo com medo os discípulos o reconhecem e desejam estar em comunhão com ele, colocando-o no barco. Neste momento o barco alcança o seu destino. A mensagem está dada. O verdadeiro “milagre” não é andar sobre as águas, mas poder acolher Jesus como o Ressuscitado, que anima na caminhada e dá novo olhar sobre os ventos contrários e o mar bravio.

Para nós hoje, frente a toda esta realidade de insegurança e incertezas, esta passagem pode nos animar. A realidade não pode ser mudada milagrosamente por Jesus, pelo Pai ou por ação do Espírito. Ela pode ser mudada sim, se reconhecemos a presença da Trindade no meio de nós e como ela nos anima na busca de um mundo mais justo para todos.

A mudança parte de nós, das nossas ações cotidianas. Comece não estacionando nas vagas para deficientes, não plagiando trabalhos na faculdade ou colando na prova. Comece não furando fila, destinando objetos encontrados aos seus reais donos. Comece sendo honesto. É assim que mudaremos a realidade do Brasil. E reze, não para ter a realidade mudada por milagre, mas para lembrar que Jesus caminha conosco e nos fortalece por ação de seu Espírito. Afinal o nosso Deus é o Deus da vida, e vida em abundância!

Sejamos!

Postado por Ir. Anderson Barroso, fsg

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