quarta-feira, 20 de junho de 2018

09. Nostalgia - sentimento "santificador"


Nostalgia. 1. Melancolia produzida no exilado pelas saudades da pátria. 2. Saudade Idealizada, as vezes irreal, por momentos vividos no passado associada a um desejo sentimental de regresso. 3. Sentimento costumeiramente associado à músicas, cheiros ou momentos/acontecimentos vividos no passado.


Falar de nostalgia é mergulhar num mundo de sentimentos e sensações que nos remetem sempre ao passado. "Ah, como é era bom brincar na rua, de rouba bandeira, de finca, de pega..." diriam alguns. Outros diriam: "Música boa era no nosso tempo, música com letra, que fazia pensar e tinha conteúdo". Outros, atualmente, suscitam discursos políticos questionáveis em função de momentos históricos já vivenciados no passado.

Mas no fundo, será mesmo que o passado era tão bom assim que nós queiramos por muitas vezes retomá-lo? Para mim, vejo que este movimento nostálgico nas artes, na política, na sociedade como um todo traz um grande perigo: santificar ideias, pessoas e experiências que não foram de fato positivas em função das dificuldades e não responsabilização com o presente.

Passado, presente e futuro são constituídos de experiências tanto positivas quanto negativas. Elas fazem parte da vida, não há como se privar delas, mesmo que seja, por vezes, nosso querer. Vivemos numa sociedade onde somos incentivados a buscar a felicidade a qualquer custo. Ao mesmo tempo não somos preparados para lhe dar com o sofrimento (vide vídeo da Jout Jout). Vivemos tempos que fogem da dor. Para tudo há um remédio que te afasta da dor, mesmo que de maneira temporária. E isto se coaduna muito bem uma sociedade mercadológica e capitalista.

Frente a isto não conseguimos conviver com a dureza da realidade (e nossa responsabilidade para muda-la). É mais fácil abrigarmo-nos nas experiências alegres e felizes do passado. Até aqui, tudo bem. Mas o passado, como o presente, também foi constituído de momentos tristes, de dificuldades, de sofrimentos e desafios. Este sentimento nostálgico elimina momentos e experiências importantes da história e isto é um grande erro. É uma saudade positivamente idealizada. Mas muito longe da realidade.

No campo político, por exemplo, vemos aumentar o discurso que pede a volta da ditadura. Este discurso cresce frente ás dificuldades sociopolíticas da atualidade. Esquecemos, porém, que o mal feito pelos governos ditatoriais, não só no Brasil, foram enormes e atacaram de maneira particular os direitos e a dignidade humana. 

A situação se complica ainda mais quando este saudosismo é reclamado por  pessoas que nem mesmo viveram o momento histórico do qual desejam a volta. Aqui, mais do que nos casos anteriores, há uma idealização irreal do passado. A história nos mostra como é difícil fazer juízo de valores de um tempo e espaço onde não estamos. É necessário para isto um grande esforço teórico, metodológico e mesmo sociológico. Não é tarefa simples. Ouvimos por exemplo, na Igreja, jovens que pedem a volta de ritos e práticas que não viveram com o argumento de que era muito melhor do que o que vivemos atualmente.

Antes de assumirmos posturas nostálgicas é preciso colocar os pés no chão, perceber o hoje e assumir nossa existência de maneira responsável e processual. O presente é oportunidade de viver o bom e o não tão bom. Assim como foi o passado. Antes do sol nascente e luminoso tem sempre uma noite e não podemos abrir mão dela.

Sejamos!!!

Postado por Ir. Anderson S. Barroso, fsg

terça-feira, 12 de junho de 2018

08. Talvez sejamos perfeitos estranhos


Compreender a condição humana com suas potencialidades e suas inaptidões não é tarefa simples. Gasta-se para isto uma vida inteira. No fundo não nos conhecemos e quando iniciamos algum processo de auto conhecimento temos dificuldade para aceitarmos aquilo que nos é próprio, nos é singular. Somos estranhos à nós mesmos.

Falo por mim. Desde que tive acesso à ferramenta do Eneagrama descobri muito sobre minha personalidade, consegui dar nomes aos sentimentos e movimentos internos tão complexos de minha experiência humana, vislumbrar caminhos de crescimento e integração. Mas na prática, quando o coração aperta, sou impelido a retomar as mesmas ações a atitudes que me fecham em mim mesmo e não me deixam crer numa existência equilibrada. Mas o que fazer então, diante deste sentimento de incapacidade de mudança e de ser gente?

A tradição do Eneagrama nos ensina que o primeiro passo é acolher nossas imperfeições, nossas sombras, nossos dragões internos. Nossa estranheza pessoal muitas vezes vêm daí, de não acolhermos como parte de nós mesmos algo que faz parte de nós. É necessidade primária para uma vida equilibrada esta aceitação. E por vida equilibrada, aqui deixemos claro, não é uma vida sem altos e baixos. Equilíbrio é sim saber acolher o que é próprio de cada momento da vida, inclusive o que não é tão bom. 

Religiões como o budismo e o hinduísmo nos mostram que a consciência é o ponto da grande virada da condição humana. Mesmo que não tenhamos total controle sobre nossos sentimentos e atitudes, a consciência das motivações que nos levam a estes estados já é grande passo na busca por equilíbrio. E quando tomamos isto por verdade conseguimos nos humanizar, ou seja, acolher nossas fragilidades com humildade e realismo.

Manter a paz com aquilo que somos é um exercício de humanização. Só podemos ser algo diferente se acolhermos o que somos agora, com toda nossa história de vida que passou e com olhos esperançados no futuro. E no fundo, a vida é um grande convite a nos abrirmos à algo mais do que nossa compreensão é capaz de alcançar. Se o nosso coração fica por vezes pequeno e nos acusa do bem que não fomos capazes de fazer podemos crer que somos acolhidos, por graça, no regaço do amor de uma existência muito mais aberta e diversa em nossa limitação humana.

Grande dom é poder partilhar nossas fragilidades e não ser julgado. Posso dizer que tive e tenho esta oportunidade de crescimento com pessoas amigas que me acolhem com empatia e respeito. Creiamos que aos poucos podemos assumir nossas "perfeitas estranhezas". E como diz a música de Jonas Blue, "nós somos apenas humanos e para isto não é necessária muita razão."

Sejamos!!!

Publicado por Ir. Anderson S. Barroso

terça-feira, 5 de junho de 2018

07. Com as mãos na terra


Hoje, dia 05 de junho celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. Criado em 1972 na Assembleia Geral das Nações Unidas, tem como objetivo principal alertar a sociedade para os diversos perigos que as ações e as escolhas humanas impõe ao Meio Ambiente. Mas o que podemos fazer para melhorar as condições de nossa relação os seres vivos que nos cercam e nosso habitat comum? Sabemos que são ações simples, cotidianas, mas que acabam tendo um gigantesco impacto no Meio Ambiente. Dentre outros podemos citar a atenção na reciclagem, o direcionamento adequado dos resíduos, o uso consciente dos recursos naturais, a valorização dos produtos locais, em especial alimentos, o minimizar ao máximo consumo de embalagens, em especial os plásticos - que inclusive é o tema principal deste ano de 2018.

Para mim, como Nutricionista e futuro Teólogo uma ação fundamental para mudar o panorama e a conscientização com o cuidado da terra é retomar o hábito de cultivar os próprios alimentos e cozinhar em casa. É preciso voltar a ter as mãos na terra. É preciso recuperar o caráter relacional entre nós e o Meio Ambiente. Abre-se um grande desafio já que para a sociedade moderna os alimentos viraram produtos que simplesmente são comprados como qualquer outra mercadoria e o ato de cozinhar, perda de tempo.

Utilizemos um exemplo simples. Imaginemos alguém que você gostaria de dar flores em breve, por ocasião de alguma comemoração ou festejo. Você porém não vai comprar as flores. Você deverá cultivar estas flores. Em quanto tempo antes seria preciso começar o plantio? Qual seria o modo de cultivo? O que seria preciso? Certamente o contato diário e o cuidado com as flores faz que elas sejam muito mais do que um produto. Elas ganham uma perspectiva completamente nova. Não está mais na lógica comercial (de coisas e produtos) mas na lógica relacional (de você com a pessoa, com as flores, com a terra, com ervas daninhas que possam aparecer, com insetos ou pragas que queiram atacar suas flores...). Como em "O pequeno príncipe", ela não será mais qualquer flor, ela será "a sua flor".

Este ampliar de relações é o que acontece quando temos a oportunidade de cultivar nossos próprios alimentos (mesmo que em quantidades muito reduzidas) e de nos darmos ao trabalho de transforma-los em refeição. A primeira mudança de perspectiva é a valorização do trabalho de muitas e muitas pessoas que trabalham diariamente para que tenhamos a cada dia o "pão nosso de cada dia". Quem planta sabe, não é fácil. Não é algo que dependa somente daquele que planta. Muito pelo contrário. Aquele que cultiva depende do ar, das chuvas, da temperatura do ambiente, da flora e fauna que os circunda, etc. Os resultados não depende só de seu esforço ou trabalho, ele depende de muitos outros fatores. Aqui temos a oportunidade de sair da lógica eficientista e individualista: o fruto do trabalho depende, afinal, do equilíbrio e das relações harmônicas com todos os seres vivos e não vivos que nos circundam.

Um segundo ponto é que quando plantamos colocamo-nos no lugar do outro. Temos oportunidade de exercitar a empatia, tanto com aqueles e aquelas que trabalham com o plantio de alimentos, bem como com aqueles que não tem o que comer. Quando plantamos os alimentos passam a ter novo significado e conseguimos ser mais conscientes de nossa relação com os alimentos. Neste momento podemos perceber a importância deles para nossa existência e agir de maneira empática e misericordiosa para com aqueles que infelizmente não tem acesso a alimentos em quantidade e qualidade adequados.

Numa perspectiva mais religiosa percebe-se como há algo de divino do ato de alimentar-se. Norman Wirzba, teólogo protestante canadense, em seu livro "Alimento e fé" aponta que nossa relação com a terra deve ser análoga à de Deus com sua criação. Deus é o grande jardineiro da criação, aquele que coloca as mãos na terra, que cuida do jardim, que gasta tempo. E somente quando se gasta tempo, trabalho, empenho, dedica-se a algo, podemos de fato valorizar os frutos que brotam desta nossa ação. No fundo, a alimentação é um dom dado ao ser humano para que tenhamos consciência de nossos limites humanos e a necessidade que temos de toda a criação. Sem alimentos não há vida, o homem simplesmente não existe. Podemos inventar mil e uma coisa, mas não somos alto suficientes no que se refere à manutenção da vida. Somos dependentes da criação.

Esta compreensão de que somos seres dependentes e que o equilíbrio dos outros seres influencia diretamente em nossa qualidade de vida é que nos pode ajudar a mudar nossas relações cotidianas com o Meio Ambiente. Não é uma escolha, é uma constatação. No fundo, quando cultivamos algo não estamos cuidando da cenoura, do chuchu ou dos tomates. Cuidar do Meio Ambiente não é cuidar de algo externo, é cuidar de si mesmos.

Recomendo por fim, ver o pequeno vídeo do organismo "Conservação Internacional" sobre a Mãe Natureza na voz marcante de Maria Betânia. (clique aqui). Ele nos dá um choque necessário de realidade: estamos preparados para evoluir? Espero que sim, e que esta evolução parta da mesa. Nada mais próprio e mais bonito, mais humano e mais simples, como colocar as mãos na terra.

Sejamos!!!

Postado por Ir. Anderson S. Barroso