terça-feira, 5 de junho de 2018

07. Com as mãos na terra


Hoje, dia 05 de junho celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. Criado em 1972 na Assembleia Geral das Nações Unidas, tem como objetivo principal alertar a sociedade para os diversos perigos que as ações e as escolhas humanas impõe ao Meio Ambiente. Mas o que podemos fazer para melhorar as condições de nossa relação os seres vivos que nos cercam e nosso habitat comum? Sabemos que são ações simples, cotidianas, mas que acabam tendo um gigantesco impacto no Meio Ambiente. Dentre outros podemos citar a atenção na reciclagem, o direcionamento adequado dos resíduos, o uso consciente dos recursos naturais, a valorização dos produtos locais, em especial alimentos, o minimizar ao máximo consumo de embalagens, em especial os plásticos - que inclusive é o tema principal deste ano de 2018.

Para mim, como Nutricionista e futuro Teólogo uma ação fundamental para mudar o panorama e a conscientização com o cuidado da terra é retomar o hábito de cultivar os próprios alimentos e cozinhar em casa. É preciso voltar a ter as mãos na terra. É preciso recuperar o caráter relacional entre nós e o Meio Ambiente. Abre-se um grande desafio já que para a sociedade moderna os alimentos viraram produtos que simplesmente são comprados como qualquer outra mercadoria e o ato de cozinhar, perda de tempo.

Utilizemos um exemplo simples. Imaginemos alguém que você gostaria de dar flores em breve, por ocasião de alguma comemoração ou festejo. Você porém não vai comprar as flores. Você deverá cultivar estas flores. Em quanto tempo antes seria preciso começar o plantio? Qual seria o modo de cultivo? O que seria preciso? Certamente o contato diário e o cuidado com as flores faz que elas sejam muito mais do que um produto. Elas ganham uma perspectiva completamente nova. Não está mais na lógica comercial (de coisas e produtos) mas na lógica relacional (de você com a pessoa, com as flores, com a terra, com ervas daninhas que possam aparecer, com insetos ou pragas que queiram atacar suas flores...). Como em "O pequeno príncipe", ela não será mais qualquer flor, ela será "a sua flor".

Este ampliar de relações é o que acontece quando temos a oportunidade de cultivar nossos próprios alimentos (mesmo que em quantidades muito reduzidas) e de nos darmos ao trabalho de transforma-los em refeição. A primeira mudança de perspectiva é a valorização do trabalho de muitas e muitas pessoas que trabalham diariamente para que tenhamos a cada dia o "pão nosso de cada dia". Quem planta sabe, não é fácil. Não é algo que dependa somente daquele que planta. Muito pelo contrário. Aquele que cultiva depende do ar, das chuvas, da temperatura do ambiente, da flora e fauna que os circunda, etc. Os resultados não depende só de seu esforço ou trabalho, ele depende de muitos outros fatores. Aqui temos a oportunidade de sair da lógica eficientista e individualista: o fruto do trabalho depende, afinal, do equilíbrio e das relações harmônicas com todos os seres vivos e não vivos que nos circundam.

Um segundo ponto é que quando plantamos colocamo-nos no lugar do outro. Temos oportunidade de exercitar a empatia, tanto com aqueles e aquelas que trabalham com o plantio de alimentos, bem como com aqueles que não tem o que comer. Quando plantamos os alimentos passam a ter novo significado e conseguimos ser mais conscientes de nossa relação com os alimentos. Neste momento podemos perceber a importância deles para nossa existência e agir de maneira empática e misericordiosa para com aqueles que infelizmente não tem acesso a alimentos em quantidade e qualidade adequados.

Numa perspectiva mais religiosa percebe-se como há algo de divino do ato de alimentar-se. Norman Wirzba, teólogo protestante canadense, em seu livro "Alimento e fé" aponta que nossa relação com a terra deve ser análoga à de Deus com sua criação. Deus é o grande jardineiro da criação, aquele que coloca as mãos na terra, que cuida do jardim, que gasta tempo. E somente quando se gasta tempo, trabalho, empenho, dedica-se a algo, podemos de fato valorizar os frutos que brotam desta nossa ação. No fundo, a alimentação é um dom dado ao ser humano para que tenhamos consciência de nossos limites humanos e a necessidade que temos de toda a criação. Sem alimentos não há vida, o homem simplesmente não existe. Podemos inventar mil e uma coisa, mas não somos alto suficientes no que se refere à manutenção da vida. Somos dependentes da criação.

Esta compreensão de que somos seres dependentes e que o equilíbrio dos outros seres influencia diretamente em nossa qualidade de vida é que nos pode ajudar a mudar nossas relações cotidianas com o Meio Ambiente. Não é uma escolha, é uma constatação. No fundo, quando cultivamos algo não estamos cuidando da cenoura, do chuchu ou dos tomates. Cuidar do Meio Ambiente não é cuidar de algo externo, é cuidar de si mesmos.

Recomendo por fim, ver o pequeno vídeo do organismo "Conservação Internacional" sobre a Mãe Natureza na voz marcante de Maria Betânia. (clique aqui). Ele nos dá um choque necessário de realidade: estamos preparados para evoluir? Espero que sim, e que esta evolução parta da mesa. Nada mais próprio e mais bonito, mais humano e mais simples, como colocar as mãos na terra.

Sejamos!!!

Postado por Ir. Anderson S. Barroso




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