terça-feira, 12 de junho de 2018

08. Talvez sejamos perfeitos estranhos


Compreender a condição humana com suas potencialidades e suas inaptidões não é tarefa simples. Gasta-se para isto uma vida inteira. No fundo não nos conhecemos e quando iniciamos algum processo de auto conhecimento temos dificuldade para aceitarmos aquilo que nos é próprio, nos é singular. Somos estranhos à nós mesmos.

Falo por mim. Desde que tive acesso à ferramenta do Eneagrama descobri muito sobre minha personalidade, consegui dar nomes aos sentimentos e movimentos internos tão complexos de minha experiência humana, vislumbrar caminhos de crescimento e integração. Mas na prática, quando o coração aperta, sou impelido a retomar as mesmas ações a atitudes que me fecham em mim mesmo e não me deixam crer numa existência equilibrada. Mas o que fazer então, diante deste sentimento de incapacidade de mudança e de ser gente?

A tradição do Eneagrama nos ensina que o primeiro passo é acolher nossas imperfeições, nossas sombras, nossos dragões internos. Nossa estranheza pessoal muitas vezes vêm daí, de não acolhermos como parte de nós mesmos algo que faz parte de nós. É necessidade primária para uma vida equilibrada esta aceitação. E por vida equilibrada, aqui deixemos claro, não é uma vida sem altos e baixos. Equilíbrio é sim saber acolher o que é próprio de cada momento da vida, inclusive o que não é tão bom. 

Religiões como o budismo e o hinduísmo nos mostram que a consciência é o ponto da grande virada da condição humana. Mesmo que não tenhamos total controle sobre nossos sentimentos e atitudes, a consciência das motivações que nos levam a estes estados já é grande passo na busca por equilíbrio. E quando tomamos isto por verdade conseguimos nos humanizar, ou seja, acolher nossas fragilidades com humildade e realismo.

Manter a paz com aquilo que somos é um exercício de humanização. Só podemos ser algo diferente se acolhermos o que somos agora, com toda nossa história de vida que passou e com olhos esperançados no futuro. E no fundo, a vida é um grande convite a nos abrirmos à algo mais do que nossa compreensão é capaz de alcançar. Se o nosso coração fica por vezes pequeno e nos acusa do bem que não fomos capazes de fazer podemos crer que somos acolhidos, por graça, no regaço do amor de uma existência muito mais aberta e diversa em nossa limitação humana.

Grande dom é poder partilhar nossas fragilidades e não ser julgado. Posso dizer que tive e tenho esta oportunidade de crescimento com pessoas amigas que me acolhem com empatia e respeito. Creiamos que aos poucos podemos assumir nossas "perfeitas estranhezas". E como diz a música de Jonas Blue, "nós somos apenas humanos e para isto não é necessária muita razão."

Sejamos!!!

Publicado por Ir. Anderson S. Barroso

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