terça-feira, 31 de julho de 2018

12. Bem aventurados


Para nós cristãos, a prática de Jesus é o modelo de vida e conduta. É a partir de sua existência humana, vivida com suas alegrias e tristeza que balizamos a nossa, ou pelo menos, que intencionamos fazê-lo, com a devida percepção de nossa limitação. A vida de Cristo nos aponta a meta da humanidade, buscando uma vida com mais vida para todos e todas.

Um dos textos bíblicos que sempre foram utilizados para animar-nos nesta difícil tarefa é o texto das bem aventuranças. Embora mostrem uma difícil situação, abrem-nos para uma esperança sempre viva que o Deus Trindade, Deus da vida, está juntos dos pequenos, dos que choram, dos injustiçados, dos humilhados e excluídos. Outros também seguiram este caminho, de viver tempos difíceis mas sem deixar seus valores e sem perder a esperança. Unidos a estes mártires da esperança, neste nosso difícil cenário sociopolítico, poderíamos também nós dizer: 

Bem aventurados os pobres, os pobres massacrados por um sistema econômico que se importa em gerar dinheiro e riqueza e não vida, os pobres que não tem acesso aos direitos que tem, os pobres que os ricos não querem dar nem as migalhas, embora sejam eles a servir sempre a mesa farta... deles é o reino dos céus.
Bem aventurados os mansos, os que se abrem ao diálogo, os que são capazes de escutar sem minimizar a opinião alheia, sem diminuir aquele a que se escuta, o que valoriza a história de vida e as relações dos outros, os que entendem que o que é bom para mim pode não ser para o outro, os que em última instância são movidos pelo amor e não pela necessidade de estar certos... porque herdarão a terra.

Bem aventurados os que choram... os que choram pela total desumanização da escravidão ocorrida nas Américas e suas diversas consequências; os  que choram pelas mulheres diariamente violentadas e mortas, crimes estes frutos de uma sociedade machista; os que choram pelas vítimas de crimes homofóbicos e transfóbicos; os que choram seus entes queridos, que nunca foram encontrados, depois de sequestrados e torturados por motivação política; os que choram seus parentes que morreram lutando por direitos iguais de fato para todos... todos estes serão consolados.

Bem aventurados os que tem fome e sede de justiça, os que dedicam sua vida a causas por missão, os que lutam por equanimidade, pela igualdade na diversidade, os que acreditam ainda num estado democrático, os que buscam que todos tenham o que comer, onde morar, o que vestir, o que sonhar, os que percebem que não pode haver real dignidade em usufruir irresponsavelmente da riqueza enquanto milhões morrem na pobreza... todos estes serão saciados.

Bem aventurados os misericordiosos, ou seja, aqueles que são capazes de agir com empatia, com plena consciência de que somos formados por luzes e por sombras, que não negam o condição paradoxal do ser humano... misericordiosos porque veêm acima do erro, um SER HUMANO. Estes, os misericordiosos alcançarão misericórdia.


Bem aventurados os puros de coração, que não utilizam o direito da livre opinião para ludibriar a opinião pública em clara busca de benefícios próprios, contra minorias e contra os pobres; bem aventurados os que trazem no coração a simplicidade, a poesia, a coerência e a verdade porque verão a Deus.

Bem aventurados os pacificadores, que não utilizam da força bruta e da violência para resolver os problemas que no fundo são frutos da desigualdade social, de privilégios dos grandes e de não acesso à educação e saúde para TODOS, os que são adeptos da não-violência em todos os aspectos inclusive na comunicação... porque serão chamados filhos de Deus.

Bem aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, aqueles que mesmo frente a perseguições ideológicas e políticas continuam lutando pela justiça, lutando contra a corrupção, contra o poder econômico que garante aos ricos maiores privilégios e aos pobres sempre o que resta ou nem isto... porque deles é o reino dos céus.

Bem aventurados vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Ofendidos pela cor da pele, diminuídos pela condição social, perseguidos por lutas sociais ou por buscar a garantia dos direitos iguais... grande será a vossa recompensa no céu.

Não nos esqueçamos que crer em Jesus nos implica a agir como ele agiu. 

Amém!
Sejamos!!! 

Postado por Ir. Anderson S. Barroso

terça-feira, 10 de julho de 2018

11. Até quando?


Confesso que começo a escrever estas linhas com o coração cheio de tristeza. Tenho feito um esforço para acreditar mais nas pessoas e em suas boas intenções. E isto só me tem trazido gratas surpresas. O fato é que, mesmo com boas intenções as pessoas continuam partilhando comportamentos que eu, em minha vã ilusão, esperava que já não existisse mais, sobretudo no círculo de pessoas com as quais convivo. 

"_Você é moreno bonito porque pelo menos tem olhos azuis". Foi a frase que escutei na semana que passou. Não precisa muita reflexão para perceber que por trás desta frase existe um grande racismo e uma mínima falta de percepção. Digo isto não por simples "achismo" mas por uma reflexão profunda que me seguiu os próximos dias depois desta fala. O primeiro fato é eu, como negro, raramente escuto esta expressão. Só as pessoas mais próximas e familiares a utilizam. A maior parte das pessoas prefere utilizar a expressão "moreno", a meu ver, com a intenção de me fazer sentir bem, o que nem sempre é o que acontece. O segundo fato é que eu não tenho olhos azuis, meus olhos são verdes. Não entendi, sobretudo, os grandes elogios aos olhos azuis que se seguiram ao comentário que a pessoa me fez. Mas o que mais me incomodou é o fato de que ter olhos azuis (que não é o meu caso) é um "pelo menos", como se isto fosse um bônus em relação à inteireza de uma pessoa, que claramente foi colocada em estado depreciado frente a simples cor dos olhos. É no mínimo um comentário que não leva em consideração nenhum real atributo qualitativo para nós, seres humanos, como caráter e valores humanizados.

E antes que todas estas ideias me saíssem da memória e do coração, recebi uma "tentativa" de elogio. Uma pessoa, ao ver um trabalho voluntário que eu estava fazendo, me disse que se ela estivesse em seu antigo cargo (de grande influência política e social) eu iria trabalhar com ela. O comentário veio de uma pessoa que não sabia nada de minha vida, nem de minhas experiências profissionais e de estudos. O que eu percebi foi que ela achou que seria, para mim, uma ótima oportunidade ter que trabalhar com ela. O fato é que cansa ser sempre tratado como empregado todos os momentos de nossa vida. Não houve, no pensar da pessoa, a possibilidade de que poderia não ser interessante para mim ir trabalhar com ela. "A carne mais barata do mercado" não deve ser mais a carne negra. É difícil aceitar, na casa grande, que a senzala agora estudou, se formou e tem outras possibilidades que continuar aceitando de bom grado os grilhões que macularam com sangue nossos ancestrais.

Por mais que pareça falácia, fico a me perguntar até quando teremos que conviver com estes tipos de comportamentos. Mesmo que sem intenção consciente, eles demonstram que, inconscientemente, vivemos ainda as consequências do tempo em que a condição de "ser gente" era definida pela cor. Sonho com o dia em que a cor da pele só seja diferencial para escolher o protetor solar, e nada mais.

Sejamos!!!

Postado por Ir. Anderson S. Barroso, fsg

terça-feira, 3 de julho de 2018

10. Daqui, apenas uma estrela, mas a realidade é outra




Com a correria do dia a dia, sobretudo nas grandes cidades, perdemos o maravilhoso hábito de observar o céu. Particularmente à noite, a lua e as estrelas nos proporcionam um espetáculo de rara beleza. O ciclo lunar e os planetas nos falam sobre a diversidade e a dinâmica da vida, sempre em constante movimento. Um grande fascínio e mistério contidos no céu, bem ao nosso alcance.

Esta semana que passou tivemos três fatos interessantes: a lua cheia (já estamos acostumados), o posicionamento de Saturno bem próximo da terra a ponto de podermos visualiza-lo a olho nu e também a passagem do asteroide 4 Vesta, de 500 km de diâmetro. Confesso que fiquei ansioso para a observação de ambos e como estariam no céu. Uma maravilha!!! Mas para os olhos desatentos, apenas mais duas estrelinhas no céu.

Me chamou atenção as proporções físicas do asteroide Vesta e o fato de que daqui o vemos apenas como uma pequena estrela meio laranja que se movimentava lentamente pelo céu. Pensava que esta é uma boa metáfora para a nossa vida diária, sobretudo com relação ao entendimento e compreensão que fazemos do mundo. Só percebemos a realidade de fato ao nos aproximarmos das coisas. Quanto mais distante estamos, mais longe da alcançarmos a realidade. Não conseguimos ter boa noção quando não nos aproximamos. Algo que é grande nos parece um singelo detalhe. E em grande parte das vezes, queremos emitir nossos juízos e opiniões sem conhecer de fato a realidade.

Penso isto sobretudo neste tempo de prévias eleitorais. As pessoas defendem este ou aquele ponto de vista, pensam escolher o melhor, querem que seja levado em consideração o seu ponto de vista. Mas são incapazes de se aproximar com reta intenção das complexas realidades que se apresentam. Daí só pode surgir análises simplistas e pouco próximas da realidade.

Eu, como negro, me deparo diariamente com esta dificuldade. Muitas pessoas, sem má intenção, querem dizer isto ou aquilo sobre ações afirmativas para a população negra sem que estejam o mínimo próximos da nossa realidade. Não há como entender a necessidade destas ações e posicionamentos políticos sem uma diminuta aproximação. O mesmo poderia dizer aqui da situação das mulheres, dos LGBTI+, das pessoas com deficiência, de povos originários... A diferença aqui é que não somos vistos nem como pequenas estrelas no céu. Sem aproximação nós simplesmente deixamos de existir. Muitas vezes a falta de aproximação destas  realidades faz que sejamos completamente invisibilizados. Ou tratados como o "resto de Israel". 

Somos chamados minorias. Pequenas estrelas no grande céu azulado. A realidade porém não é bem esta. Temos uma história, um caminho, vidas e vidas. Nossa existência é grande. Grande com aquele asteroide. Queremos ser vistos como somos, respeitados por isto. E a aproximação faz-se necessária. Que estejamos abertos a nos aproximar das realidades que não nos pertencem e aí sim, com empatia e respeito buscar no distante (e no diferente) a luz que faz viver.

Sejamos!!!

Postado por Ir. Anderson S. Barroso, fsg