terça-feira, 10 de julho de 2018

11. Até quando?


Confesso que começo a escrever estas linhas com o coração cheio de tristeza. Tenho feito um esforço para acreditar mais nas pessoas e em suas boas intenções. E isto só me tem trazido gratas surpresas. O fato é que, mesmo com boas intenções as pessoas continuam partilhando comportamentos que eu, em minha vã ilusão, esperava que já não existisse mais, sobretudo no círculo de pessoas com as quais convivo. 

"_Você é moreno bonito porque pelo menos tem olhos azuis". Foi a frase que escutei na semana que passou. Não precisa muita reflexão para perceber que por trás desta frase existe um grande racismo e uma mínima falta de percepção. Digo isto não por simples "achismo" mas por uma reflexão profunda que me seguiu os próximos dias depois desta fala. O primeiro fato é eu, como negro, raramente escuto esta expressão. Só as pessoas mais próximas e familiares a utilizam. A maior parte das pessoas prefere utilizar a expressão "moreno", a meu ver, com a intenção de me fazer sentir bem, o que nem sempre é o que acontece. O segundo fato é que eu não tenho olhos azuis, meus olhos são verdes. Não entendi, sobretudo, os grandes elogios aos olhos azuis que se seguiram ao comentário que a pessoa me fez. Mas o que mais me incomodou é o fato de que ter olhos azuis (que não é o meu caso) é um "pelo menos", como se isto fosse um bônus em relação à inteireza de uma pessoa, que claramente foi colocada em estado depreciado frente a simples cor dos olhos. É no mínimo um comentário que não leva em consideração nenhum real atributo qualitativo para nós, seres humanos, como caráter e valores humanizados.

E antes que todas estas ideias me saíssem da memória e do coração, recebi uma "tentativa" de elogio. Uma pessoa, ao ver um trabalho voluntário que eu estava fazendo, me disse que se ela estivesse em seu antigo cargo (de grande influência política e social) eu iria trabalhar com ela. O comentário veio de uma pessoa que não sabia nada de minha vida, nem de minhas experiências profissionais e de estudos. O que eu percebi foi que ela achou que seria, para mim, uma ótima oportunidade ter que trabalhar com ela. O fato é que cansa ser sempre tratado como empregado todos os momentos de nossa vida. Não houve, no pensar da pessoa, a possibilidade de que poderia não ser interessante para mim ir trabalhar com ela. "A carne mais barata do mercado" não deve ser mais a carne negra. É difícil aceitar, na casa grande, que a senzala agora estudou, se formou e tem outras possibilidades que continuar aceitando de bom grado os grilhões que macularam com sangue nossos ancestrais.

Por mais que pareça falácia, fico a me perguntar até quando teremos que conviver com estes tipos de comportamentos. Mesmo que sem intenção consciente, eles demonstram que, inconscientemente, vivemos ainda as consequências do tempo em que a condição de "ser gente" era definida pela cor. Sonho com o dia em que a cor da pele só seja diferencial para escolher o protetor solar, e nada mais.

Sejamos!!!

Postado por Ir. Anderson S. Barroso, fsg

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