terça-feira, 3 de julho de 2018

10. Daqui, apenas uma estrela, mas a realidade é outra




Com a correria do dia a dia, sobretudo nas grandes cidades, perdemos o maravilhoso hábito de observar o céu. Particularmente à noite, a lua e as estrelas nos proporcionam um espetáculo de rara beleza. O ciclo lunar e os planetas nos falam sobre a diversidade e a dinâmica da vida, sempre em constante movimento. Um grande fascínio e mistério contidos no céu, bem ao nosso alcance.

Esta semana que passou tivemos três fatos interessantes: a lua cheia (já estamos acostumados), o posicionamento de Saturno bem próximo da terra a ponto de podermos visualiza-lo a olho nu e também a passagem do asteroide 4 Vesta, de 500 km de diâmetro. Confesso que fiquei ansioso para a observação de ambos e como estariam no céu. Uma maravilha!!! Mas para os olhos desatentos, apenas mais duas estrelinhas no céu.

Me chamou atenção as proporções físicas do asteroide Vesta e o fato de que daqui o vemos apenas como uma pequena estrela meio laranja que se movimentava lentamente pelo céu. Pensava que esta é uma boa metáfora para a nossa vida diária, sobretudo com relação ao entendimento e compreensão que fazemos do mundo. Só percebemos a realidade de fato ao nos aproximarmos das coisas. Quanto mais distante estamos, mais longe da alcançarmos a realidade. Não conseguimos ter boa noção quando não nos aproximamos. Algo que é grande nos parece um singelo detalhe. E em grande parte das vezes, queremos emitir nossos juízos e opiniões sem conhecer de fato a realidade.

Penso isto sobretudo neste tempo de prévias eleitorais. As pessoas defendem este ou aquele ponto de vista, pensam escolher o melhor, querem que seja levado em consideração o seu ponto de vista. Mas são incapazes de se aproximar com reta intenção das complexas realidades que se apresentam. Daí só pode surgir análises simplistas e pouco próximas da realidade.

Eu, como negro, me deparo diariamente com esta dificuldade. Muitas pessoas, sem má intenção, querem dizer isto ou aquilo sobre ações afirmativas para a população negra sem que estejam o mínimo próximos da nossa realidade. Não há como entender a necessidade destas ações e posicionamentos políticos sem uma diminuta aproximação. O mesmo poderia dizer aqui da situação das mulheres, dos LGBTI+, das pessoas com deficiência, de povos originários... A diferença aqui é que não somos vistos nem como pequenas estrelas no céu. Sem aproximação nós simplesmente deixamos de existir. Muitas vezes a falta de aproximação destas  realidades faz que sejamos completamente invisibilizados. Ou tratados como o "resto de Israel". 

Somos chamados minorias. Pequenas estrelas no grande céu azulado. A realidade porém não é bem esta. Temos uma história, um caminho, vidas e vidas. Nossa existência é grande. Grande com aquele asteroide. Queremos ser vistos como somos, respeitados por isto. E a aproximação faz-se necessária. Que estejamos abertos a nos aproximar das realidades que não nos pertencem e aí sim, com empatia e respeito buscar no distante (e no diferente) a luz que faz viver.

Sejamos!!!

Postado por Ir. Anderson S. Barroso, fsg

Nenhum comentário:

Postar um comentário