quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

14. Voltaram por outro caminho


A palavra CAMINHO tem grande importância dentro da Bíblia, sobretudo para os textos do segundo testamento. Pode passar despercebido à maioria das pessoas, mas para as primeiras comunidades, falar do caminho, ou daqueles que se colocam no caminho é falar da própria comunidade cristã nascida após a experiência com o Ressuscitado. Os evangelistas afirmam que Jesus mesmo é o caminho (Jo 14,6), aquele que leva ao Pai (Jo 14,9) e indica uma nova forma de vida (Mt 20,25-28).

O evangelho do último domingo (Mt 2,1-12) narrou a visita dos Reis Magos ao menino Jesus recém nascido. Esta visita é precedida de um outro encontro, com o Rei Herodes. Dois encontros. Duas realidades completamente diferentes. Duas propostas de vida. Diante de nossa realidade sociopolítica penso que este evangelho pode iluminar nossos passos e também nossa conduta.

Um primeiro entendimento que podemos tirar na narrativa de Mateus é o fato dos Reis colocarem-se no caminho, guiados por uma estrela. Colocar-se no caminho é sempre uma atitude corajosa e de desprendimento. Demanda de nós abertura, confiança num plano maior de vida, liberalidade frente ao futuro. É preciso confiar que estamos sendo guiados, nesta vida, por uma luz maior que dá sentido à nossa vida. No caminho indicado por esta luz vamos encontramos muita gente que se acha importante e que quer exigir de nós comportamentos e direcionamentos específicos, que garantem que seus objetivos gananciosos e perversos sejam mantidos. De acordo com o evangelho também foi assim o ocorrido com os magos. Eles, porém, questionam-se internamente a respeito destes propósitos.

Seguindo a estrela os Reis encontram-se com Jesus, centro de nossa fé. Temos o costume de dar grande importância aos presentes trazidos: ouro, incenso e mirra. Estes são vistos por muitos exegetas (estudiosos do texto bíblico) em vista do futuro de Jesus. Pode passar despercebido, porém, que Jesus é o grande presente recebido pelo ser humano, pelos diferentes povos que os Reis Magos simbolizam. A experiência com Jesus Encarnado muda completamente a perspectiva de vida daqueles que o encontram verdadeiramente. A luz do caminho fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1,14).

Para nós hoje, imersos em uma realidade premente de experiências fortes e emotivas de fé, é interessante perceber que os Reis vão, visitam o menino e depois retornam às suas realidades. A experiência com Deus é feita de forma única e significante, que marca toda a vida. Mas só tem sentido real se ela pode ser ampliada e levada às realidades da vida cotidiana. Eles então voltam para sua região com cita o texto (Mt 2,12).

Percebemos que a experiência com Jesus nos impele a buscar o novo, novas realidades, novos caminhos. A própria história da Igreja mostra que o Espírito Santo impulsiona-nos a estarmos sempre sobre novos caminhos. Mas o novo pelo novo não resolve. O outro caminho inspirado por Jesus é sempre um caminho de vida. Se os Reis escolheram voltar por outro caminho é porque viram que o caminho que passava por Herodes era um caminho de morte, de controle social, de garantia do poder opressor. Não deve ser este o caminho dos cristão. Não nos basta tomar novos caminhos. É preciso escolher caminhos novos que gerem vida. 

Certamente grande é o desafio de tomarmos caminhos novos. O papa Francisco tem insistido muito neste sentido. “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (Evangelii Gaudium). Temos muitos novos caminhos a trilhar. Caminhos novos sim, mas que nos levem de volta para nossas realidades mais profundas, mais internas e essenciais, que gerem vida porque o nosso Deus é o Deus da vida.

Sejamos!!! 

Postado por Ir. Anderson S. Barroso, fsg

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

13. Ide para essa terra que mana leite e mel


Começou o ano de 2019. E as notícias vindas do recém empossado governo brasileiro não são das melhores. Vou me resumir aqui a falar daquilo que me cabe como Nutricionista e Teólogo: o fim do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - CONSEA.

Através de MP nº 870, assinada ontem pelo presidente Jair Bolsonaro, fica alterada a Lei 11.346 de 2006, lei que regulamenta o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - SISAN. Na prática as alterações eliminam o CONSEA como um órgão integrante do SISAN (Se você quer conferir os incisos alterados clique aqui).

Para que compreendamos o real impacto desta medida precisamos entender o que era o CONSEA e suas atribuições. Ele foi criado com órgão consultivo, com a participação de diversos membros da sociedade civil. Era composto até então por 60 conselheiros, sendo 40 da sociedade civil e 20 do governo. Era, portanto, um importante instrumento de escuta. Com seu fim, a voz da sociedade a respeito da alimentação deixa de ser (oficialmente) ouvida pelo governo. Mas o que ela estava dizendo? O que pode ter motivado esta decisão por parte do governo?

Em suma o CONSEA dedicou-se a defender e promover o direito humano básico ao alimento e nutrição. Isso parece algo importante de ser defendido sobretudo no Brasil onde ainda aproximadamente 5,2 milhões de brasileiros passam fome e outros tantos milhões sofrem com doenças relacionadas à alimentação não saudável. O Conselho mobilizava e apoiava toda a sociedade na discussão de ações públicas que buscassem resolver esses desafios. A inclusão do direito à alimentação na Constituição Federal, o incentivo à Agricultura Familiar, à Política de Agroecologia e Produção Orgânica, a implementação da compra de produtos da agricultura familiar por órgãos públicos foram suas grandes vitórias. Todas estas ações são determinantes na busca de um país com uma alimentação cada vez mais saudável, que respeita as identidades culturais locais e a história alimentar de seu povo.

Mas talvez não seja este o objetivo dos nossos atuais governantes. Como denuncia Leonardo Boff, o alimento agora é visto unicamente como produto e não como dom da vida dado por Deus (conferir aqui). Incomoda um dos grandes questionamentos do CONSEA: a luta por alimentos de verdade, não industrializados e sem veneno. O que importa aos negócios das grandes multinacionais não é possibilitar ao povo um alimento saudável mas um produto que tenha gerado bastante lucro para suas empresas. E a indústria dos agrotóxicos (muitos deles já proibidos na maioria dos países de primeiro mundo e ainda liberados no Brasil) continua sendo uma grande fonte de lucro. Uns poucos ganham, muitos saem perdendo. 

Preocupa-nos que um governo que se diz motivado por princípios cristãos estejam tão longe da palavra de Deus e da prática de Jesus junto aos alimentos e aos famintos. Parece-nos que a terra que mana leite e mel continua sendo buscada por um povo de cabeça dura (Ex 33,3). Apresenta-se um projeto de crescimento que não valoriza a terra, a biodiversidade, as grandes riquezas naturais do nosso Brasil. Um alimento que não gera nutrição, mas doenças e desequilíbrios para as pessoas e todo o Meio Ambiente.

Não nos enganemos. Não é possível gerar bem para uma nação inteira ao mesmo tempo que a saúde dos agricultores é destruída, a terra é envenenada e a população mais pobre só tenha acesso à alimentos contaminados quimicamente e de baixo valor nutricional pela alta industrialização. Jesus veio para que TODOS tenham vida e não somente uma parcela. Para isto precisamos continuar dialogando e buscando soluções para nossos prementes desafios relacionados á alimentação. Continuemos no caminho, mesmo que ele nos pareça difícil. Que 2019 nos traga muita resiliência. Precisaremos. 

Sejamos!

Postado por Ir. Anderson Silva Barroso, fsg