domingo, 24 de maio de 2020

O mundo da "insignificância" (parte 1)



Falamos dos pobres como dos ‘insignificantes’, na medida em que sua dignidade humana e sua condição de filhos e filhas de Deus não é reconhecida pela sociedade contemporânea. É um termo que nos permite recordar, além do mais, que para aquele que crê em Deus, que não faz acepção de pessoas, ninguém pode ser insignificante (MÜLLER & GUTIÉRREZ, 2014, p. 131).


No livro "Ao lado dos pobres", publicado em 2014 pela editora Paulinas, Gustavo Gutiérrez e Gerhard Ludwig Müller nos ajudam a retomar, frente aos desafios hodiernos, o significado e os clamores que a presença dos pobres implica para os cristãos, sobretudo aqueles da América Latina. No quinto capítulo, intitulado "Onde dormirão os pobres", Gutiérrez, de maneira clara mostra-nos como a pobreza deve ser vista frente às mudanças econômicas, políticas, culturais e eclesiais de nosso tempo. Fazemos aqui um resumo do texto, na esperança que este possa animar-te à leitura do texto completo.

GUTIÉRREZ, Gustavo. Onde dormirão os pobres? In: MÜLLER, Gerhard Ludwig; GUTIÉRREZ, Gustavo. Ao lado dos pobres: Teologia da Libertação. São Paulo: Paulinas, 2014. p. 111-160. 
As mudanças econômicas, políticas, culturais e eclesiais impele-nos um movimento contínuo de análise da realidade e de novas propostas (p. 111). Na linha de João XXIII, é manter-se aberto ao que o Senhor nos diz através dos acontecimentos históricos, tendo como parâmetro de análise o próprio evangelho. Assim sendo, a pergunta para estes tempos seria: "No mundo da revolução tecnológica e da informática, da 'globalização' da economia, do neoliberalismo e do pretenso pós-modernismo, há lugar para os que hoje são pobres e marginalizados?" Onde irão eles dormir? (p. 112).

A reflexão teológica, historicamente situada, tem como meta o serviço à vida cristã e à missão evangelizadora, anunciando a salvação em Cristo apresentada no evangelho. Não busca sua própria afirmação. Como Deus em relação com o ser humano, interessa-se por seus sofrimentos e angústias, alegrias e esperanças (p. 113-115). Assim, a Teologia da Libertação, de maneira particular, contribui fundamentalmente propondo sua reflexão a partir da opção preferencial pelo pobre. Opção evangélica e presente já anteriormente no mundo cristão, mas que retoma “nova vigência nas circunstâncias atuais” (p. 116-117). Como preferência, deve apontar para os primeiros destinatários, e não para os únicos. Em sua raiz está a gratuidade de Deus. “É uma opção teocêntrica e profética”, já que devemos amar como Deus ama, estando a serviço daqueles que não podem dar nada em troca. O gesto ao pobre, ganha assim um sentido evangélico e insere-se no mistério da encarnação: “é um ato dirigido ao próprio Cristo” (p. 118-120).

A lógica da gratuidade vinda de Deus e que dá sentido à opção preferencial depara-se, por sua vez, na atualidade, com uma mundo cada vez mais globalizado, em especial uma economia planetária. Por um lado, o desenvolvimento da ciência e da técnica abriu caminhos para uma realidade fascinante, com ampla capacidade de comunicação, potencialidades de domínio da natureza e consumo ilimitado. Esta realidade, porém, concretiza-se somente à um certo grupo social com devido conhecimento tecnológico. No lugar de fascinante, para os “insignificantes da história”, ou seja, os pobres, esta realidade globalizada pode se tornar cruel (p. 121). O mercado autorregulado passa a ser “o princípio quase absoluto da vida econômica”, fazendo que as grandes economias subjuguem e controlem as menores, que passam a portar dívidas sufocantes. Do cenário bipolar do século XX passamos a um cenário unipolar, muito mais nos campos políticos e militares do que no econômico, o que implica adotar novos métodos de análise (p. 122-124). Um novo momento, em que, ao contrário dos séculos anteriores onde a ética, em especial a cristã, poderia ser logicamente associada à economia. A atual economia “desafia as normas morais admitidas comumente” já que tem como seus motores “a inveja, o egoísmo, a cobiça”. Esta inversão de valores fundamenta-se no fato de que o “injusto é útil e o justo não é”. No fundo a atual ordem econômica é movida por ‘estruturas de pecado’, que com hipocrisia defende um liberalismo econômico desligado de outras liberdades, causando enormes injustiças sociais (p. 125-128).

A conjuntura atual é como aquela apresentada por Lucas: um homem rico com um pobre jazendo em sua porta (Lc 16,19.20). Ao contrário do texto lucano – onde o pobre tem um nome, mas o rico não – os pobres de nosso tempo são anônimos, como “peças descartáveis” predestinadas à insignificância. E o que se diz em relação às pessoas aplica-se também às nações. É do “desafio que representa para a fé a maciça e desumana pobreza” que nasce a Teologia da Libertação. Ela se defronta hoje com um problema ainda mais grave do que no momento de seu surgimento: uma distância cada vez maior entre ricos e pobres, dificuldade de acesso ao mercado de trabalho pelos pobres, visto o desenvolvimento da técnica, exclusão não somente econômica, mas também social, política e cultural. A humanidade se configurou em dois setores, um importante e com poder de decisão, outro excluído e irrelevante (p. 129-131).

Mesmo que os pobres não sejam passivos diante desta realidade de exclusão e insignificância, movidos criativamente muitas vezes pela esperança que a fé cristã inspira, vemos que esta pobreza desumana causa, em seus limites, morte prematura e injusta deles. Questão mundial, esta, que se “dirige a toda consciência humana e a uma concepção cristã de vida”. Assim sendo, a experiência latino-americana faz-nos perceber que “os mais fracos são um critério para decidir acerca da justiça existente em uma sociedade”. Justiça esta que se consolida socialmente a partir de aspectos econômicos, políticos, mas também culturais, que moldados pela lógica do mercado, reforçam o esquecimento dos insignificantes (p. 132-134).

Sem aprofundar por demais, vemos como a situação descrita se insere no movimento de reação da pós-modernidade contra os grandes temas da modernidade. Na busca pela liberdade dos indivíduos, negam-se agora os grandes relatos da modernidade, que não foi capaz de cumprir suas promessas. Isto é importante na compreensão dos insignificantes. Mundo este no qual as visões “totalizadoras da história”, que muitas vezes manipulavam os pobres, são questionadas. Entretanto o pensamento pós-moderno alcançou o extremo oposto, desautorizando todo o sentido da história, gerando um individualismo narcisista, altamente indiferente à realidade do outro. Paradoxalmente, valorizando a pluralidade e os pequenos relatos o saber pós-moderno ajuda-nos a estarmos mais atentos ao que é local e diferente. Ganham força na América Latina o discurso e a luta dos direitos das populações indígenas, negras e das mulheres. A religiosidade que a modernidade dizia estar fadada à extinção ganhou nova vitalidade, mas algumas vezes como “religiosidade difusa e confusa”, sem espaço para a utopia, para a crença em uma outra realidade (p. 135-140).

Os pontos até então apresentados pertencem originalmente à mensagem cristã. É a maneira de tratá-los frente aos desafios hodiernos que constitui novidade. Da mesma forma o anúncio do Evangelho, que a partir da perspectiva da nova evangelização centra-se no “mistério de Cristo e da sua Igreja e simultaneamente” está aberto ao mundo. Assim a Teologia da Libertação pode pensar a relação entre liberdade e libertação. Paulo faz uma distinção entre duas liberdades: a “liberdade de” e a “liberdade para” (Gl 5,1). A primeira aponta para as realidades de pecado que causam “ruptura da amizade com Deus e com os outros”. É o amor salvífico do Cristo que promove esta libertação. Paulo vai, contudo, além dela. A “liberdade para” aponta o para quê da “liberdade de”, “conferindo seu sentido profundo”. Somos libertados para amar, de forma gratuita, como Deus (Gl 5,13). Aqui acresce-se o tema da verdade: “e a verdade vos libertará” (Jo 8,32), sendo a verdade o próprio Cristo. A liberdade, desta forma, encontra seu “verdadeiro sentido quando prepara as pessoas para entrarem em relação com Deus e a estarem a serviço de outros, com um relevo especial nos mais pobres e despossuídos” (p. 141-143).

É um buscar ‘em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça’ (Mt 6,33), a partir da liberdade e da libertação – temas profundamente bíblicos – que só podem vir de Deus. Se seguirmos este princípio caminhamos na contramão da idolatria. “Hoje, no contexto neoliberal, o mercado, o lucro são objeto de um culto idolátrico”. É necessário, todavia, alguns cuidados: a) não fazer da justiça uma espécie de ídolo, sem justa proximidade e atenção aos destinatários desta justiça, pois são eles mesmos os atores que melhor sabem o que querem e necessitam; b) não fazer dos pobres uma espécie de ídolo, idealizando-o como algo sempre bom, verdadeiro e, de certo modo, sagrado, pois “a razão última do compromisso com os pobres” reside “na bondade de Deus”; c) não fazer da própria teologia uma espécie de ídolo, pensando que ela é “mais importante do que a fé que a ilumina” ou “mais do que a realidade que ela procura expressar”, pois são antes os anônimos para a sociedade – mas não para Deus – as verdadeiras testemunhas. Neste sentido a tradição mística da Igreja, presente na Teologia da Libertação desde o seu início, pode auxiliar a afastar “tudo aquilo que, de algum modo, está infectado de idolatria e de ensinamentos, que nos fazem colocar o que ‘será dado em acréscimo’ no primeiro lugar em nossa busca” (p. 144-148).

Em Deus a questão do ‘outro’ ganha novos contornos. Alcançamos a condição de ver no pobre o “outro de uma sociedade cada vez mais satisfeita consigo mesma”. Como já acenado, os povos indígenas, populações afro-ameríndias e mulheres inauguram um novo momento de diálogo e entendimento das identidades. “Eles não são conjuntos uniformes”. E para anunciar o Evangelho nestes contextos precisamos abrir-nos ao diálogo que profundamente respeita o outro e valoriza suas particularidades. Implica-se, para tal, consciência da própria identidade. “O ceticismo, o relativismo, o ‘pensamento fraco’” comuns na pós-modernidade “não conseguem encontrar a linguagem adequada para um diálogo realmente respeitoso e proveitoso”. O cristão, não obstante, deve estar atento ao que o Senhor pode nos dizer a partir de “outros ângulos humanos, culturais e religiosos” (p. 149-151).

Em face destes grupos descobrimos também a importância da solidariedade, que para os cristãos “expressa um amor eficaz por todos e em particular pelos mais indefesos da sociedade”. Vista pelo neoliberalismo como algo arcaico que impede o desenvolvimento dos povos, na visão cristã é sinal de um tempo de libertação que faz reaver a igualdade, que gera vida onde antes havia morte. Desta atitude de solidariedade bíblica (o ano jubilar) pode-se tirar duas consequências para os dias atuais: o destino universal dos bens da terra e a questão do possível perdão da dívida externa dos países mais pobres. Tudo isto, em justa medida, advém de proclamarmos nossa fé em um Deus da vida. “A opção pelos mais pobres é, justamente, uma opção pela vida”. Isto é atestado pela experiência de perseguição e martírio ocorrida em nosso continente, que remetida à morte injusta e violenta de Jesus, faz-nos “sensíveis ao dom da vida que recebemos de Deus” e que é confirmada pela ressurreição de Jesus. Também a experiência latino-americana ampliou a perspectiva de solidariedade, agora alcançando toda a natureza e a defesa dos direitos humanos (p. 152-158).

Para finalizar, parece que diante de todo o exposto, a grande urgência do tempo presente é dar sentido à existência humana. “Sem isso, [...] a luta por uma ordem social mais justa e pela solidariedade humana perdem energias e carecem de estímulo” (p. 159-160).

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