domingo, 31 de maio de 2020

O mundo da "insignificância" (parte 2)



"Quando Jerusalém celebrava a festa de Pentecoste era a festa da messe, o fim da colheita. Para a Igreja cristã nascente é a saída dos primeiros brotos. É o fim de tudo que se torna começo. Estava tudo terminado, mas é agora que sua Igreja começa."

A compreensão da fé, a que chamamos teologias, "acham-se estreitamente ligadas às perguntas que provêm da vida e dos desafios que a comunidade cristã enfrenta em seu testemunho do Reino (de Deus)". Há elementos permanentes, mas para manter-se atual depende, de certa forma, da capacidade de interpretar como a fé é vivida em certa circunstância e tempo. Mais do que perguntar-nos pelo futuro de uma teologia, essencial é interrogar-nos "pela vigência e consequências dos grandes temas da Revelação cristã que ela pôde recordar e colocar na consciência dos que creem" (GUTIÉRREZ, 2014, p. 61-62). Neste sentido, retomar o episódio da descida do Espírito Santo, em Pentecostes, pode ajudar-nos a continuar nossa reflexão a respeito do mundo da "insignificância". 

Perguntas e desafios sobre como vivenciar a fé nos nossos dias certamente não faltam. A realidade alarmante da pandemia que instalou-se em todo o mundo trouxe à luz com extraordinária crueza a realidade já apresentada por Gutiérrez: a passagem da modernidade para a pós-modernidade, marcada pelo conceito relativizado de verdade com crescente avanço de atitudes e comportamentos individualistas (inclusive na vivência da fé) criou um ambiente ainda mais propício para a invisibilização social de uma parcela muito grande da sociedade. Temos visto claramente, pelo discurso de vários líderes governamentais e donos de grandes empresas que o mercado e a economia são tratados como sendo mais importantes que a vida das pessoas. Sem nos determos aqui, o Papa Francisco já alertava para o perigo deste tipo de compreensão, dizendo da dignidade inerente ao ser humano em vista do próprio dom de Deus: "Cuidar das pessoas, que são mais importantes do que a economia. Nós, pessoas, somos templo do Espírito Santo; a economia, não." (FRANCISCO, 2020).

O que Francisco denuncia dizendo da fragilidade dos povos indígenas na situação de pandemia na região amazônica vai de encontro com uma realidade mais ampla destes povos: a tentativa de calar a voz dos povos indígenas na luta por seus direitos. As áreas de reserva indígena, sua terra sagrada, cada dia mais atacadas em vista da industria extrativista e da pecuária. Sua cultura, seus costumes e valores sendo denigridos em discursos oficiais em plena capital nacional (não nos esqueçamos que também aí, há 23 anos era assassinado covardemente o índio Galdino Jesus dos Santos, por cinco rapazes da alta sociedade brasiliense). O valor de suas vidas sendo relegado à quase nada (ou nada). Uma elite social que entende a vida indígena, a vida pobre, como sendo algo com o que se brinca ou que se despreza totalmente. Insignificantes pois sem valor de mercado, só podem gerar lucro se perdem suas terras, suas culturas, suas vidas.

Ao mesmo tempo estamos sendo moralmente vilipendiados por uma onda neofascista (com consequências racistas, sexistas, lgbtfóbicas, misógenas) que tomou conta de alguns dos grandes países das Américas. Nesta semana, por exemplo, o brutal assassinato de  George Floyd por um policial trouxe à tona (mais uma vez) o histórico de violência policial contra a população negra nos EUA, sem maiores consequências para os responsáveis. Um surto de manifestações populares, com diversos lugares incendiados e postos policiais e públicos depredados foi a realidade dos últimos dias em diversos estados do país que se diz o mais importante do mundo. Mais uma consequência de uma sociedade de poder que trata como insignificantes tudo o que é diferente de si. 

A situação no Brasil é ainda mais alarmante, pois maior a invisibilização da perda de vidas da população negra e periférica. A morte do jovem João Pedro, morto durante uma operação policial no complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ) é apenas o último caso conhecido disto. Podemos tomar como análise a relação entre o número de vidas ceifadas e a consequente comoção pública da pandemia do COVID 19 no Brasil - até o momento aproximadamente 30 mil mortos. Segundo a ONU, porém, a cada ano morrem no Brasil quase 23 mil jovens negros vítimas da violência que sofre a esta população. Uma realidade de dor, vivida por milhares de famílias negras e quase totalmente silenciada pelos que não se inserem neste contexto nefasto.

Outra população que sofre as consequências do mundo da insignificância é a população LGBTQIA+, muitas vezes também a perda de vidas. Desonrosamente o Brasil sustenta o título de país em que mais se matam pessoas deste grupo no mundo. Só em 2019 foram 329 mortes violentas motivadas por lgbtfobia. Uma morte a cada 26 horas. Isto os números oficiais; os números reais seriam ainda maiores. Como apontava Gutiérrez, a pós-modernidade paradoxalmente diz valorizar o diverso, o diferente, mas na prática não aprendeu a conviver de maneira digna com ele.

Frente à todas estas realidades, o que fazer? Assumir o discurso de fundo apocalíptico e esperar que chegue o fim? Continuar na lógica do mundo da insignificância que atinge muitos de nossos irmãos e irmãs, sobretudo vendo-os ter suas vidas arrancas, sua dignidade desrespeitada, sua existência negada? Parece-nos que não. Para os cristãos, o fim da vida de Jesus, sua Ressurreição, sua ida para o Pai e o envio do Espírito Santo em Pentecoste impõe uma nova maneira de entender a realidade. Quando Jerusalém celebrava a festa de Pentecoste era a festa da messe, o fim da colheita. Para a Igreja cristã nascente, por sua vez, é a saída dos primeiros brotos. É o fim de tudo que se torna começo, é o prelúdio da missão da comunidade. Estava tudo terminado, mas é agora que sua Igreja começa.

A ação do Espírito faz que a comunidade se lance à diversidade e ao respeito mútuo. Não há possibilidade de existência comunitária sem a existência na diferença. As pessoas, em suas culturas e raças diferentes, podem ouvir e se ouvidas (cf. At 2,1-11). A mensagem do Deus da vida alcança à todos, sem distinção. E o faz, no Espírito, pois todos somos um em Cristo: "A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum. Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo. De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito" (Cor 12,7.12-13). O relato paulino nos ajuda a entender como a comunidade de discípulos de Jesus se lança no desafio de construir uma nova sociedade (o Reino de Deus que já começa aqui) onde não há mais diferenças. Todos são chamados à vida plena em Deus, na Trindade. TODOS. A vida de todos tem valor e não pode ser "insignificada". 

Mais do que assumir o propósito de buscar acolher quem pensa, sente e vive de modo diferente do nosso (isto seria o mínimo), o cristão verdadeiro, movido pelo Santo Espírito é chamado a implicar-se na luta por toda vida, humana e de toda a criação. No fundo, o mistério da vinda do Espírito dota o ser humano de sua missão original: ser guardião da criação, da vida, como no jardim do Éden. Cabem aqui algumas últimas palavras de Gustavo Gutiérrez, que embora não escritas neste contexto, poderiam sem esforço ser lidas nele: "As novas situações demandam novos métodos de uma práxis libertadora. Precisamos estar atentos para não reassumir um verticalismo que desconsidera o Deus encarnado nem um horizontalismo socioeconômico-político. [...] A problemática é tão dramática que a Igreja nada pode fazer senão enfrentá-la" (GUTIÉRREZ, 2014, p. 34-35).


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